The thief of the bees, um filme fugitivo e outro fragmentado

Levei algum tempo para me decidir falar sobre este filme (The Thief and the Cobbler), fascinado por a historia trás do filme, e por o “Candy Eye” visual da cena: fundos habilmente ilustrados da mano e direção de Errol Le Cain. Em eles prima o preciosismo da representação mediante o uso de geometria e da cor, tomando protagonismo em cenas que são um continuo travelling entre formas que viram paisagem, e jogos com distorções geométricas que aproveitam ao máximo o que a matemática pode oferecer  para a representação do espaço: as cenografias viram personagens dentro do filme, aproveitando o uso de anamorfismos,  fazendo brincadeiras  com a percepção ambígua da perspectiva. É clara a influença persa, conteúdo infinito em se mesmo, onde o contexto, e não a representação da perspectiva (também presente), é aquelo que dita as relações entre espaço e personagens.

O realizador é Richard Williams, animador inglês melhor conhecido por “Who framed Roger Rabit” e seu celebre libro: The Animator’s Survival Kit. Williams tentou fazer seu filme inspirado na arte persa; trabalho 28 anos no projeto, deixando uma historia turbulenta que a maioria da gente que estuda sobre animação chega a conhecer de uma forma ou outra. Quem quera mergulhar o embrolho pode pesquisar na wikipedia o seguir este link, onde Garrett Gilchris, quem atualmente esta fazendo uma restauração e re-edição amadora do filme (a versão que eu assisti) fala sobre o tema a profundidade.

Foi difícil de pensar o filme como “Filme”, pois a sua principal marca é a falta de unidade, feita evidente por a disseção, a fragmentação entre cenas e estilos. Esta mirada pode-se originar no fato de estar assistindo um filme inacabado,  e também por a natureza da reconstrução de Gilchris, que toma partes das diversas versões do filme. É também um “filme possível” na medida que consegue ser fragmentado e reconstituído, e vou tentar esclarecer esta ideia assim: Na sua condição de processo continuo recebe influencias e feedback de 30 anos de produção animada contemporânea a sua realização “inconclusa” (1), e insere logo uma outra dinâmica reconstitutiva e colaborativa que é só visível por a existência da Internet e a natureza da mídia digital.

“Wax or the Discovery of Television Among the Bees” (David Blair, USA, 1994)

O exercício de Garrett Gilchris, delimitado pela procura da visão original do autor, da cabida a outra percepções sobre o filme, potencia a reconstrução como ferramenta transgressora ao tempo-morte lineal. Mas, tem ainda de ser libertado da sua estrutura de filme, de fábula, para alcançar o seu equilíbrio, sua “homeostases audiovisual”. Inevitavelmente relacionei na minha cabeça este exercício com o filme hipermidia WAX-WEB de David Blair (USA, 1993), com certa unidade de estilo que é interna, e que consegue uma fechadura (interna – externa, como a homeostase celular) por o(s) estilo(s) e que podem ser recombinado(s) sem variar a sua natureza. WAX-WEB foi desenhado num sentido fragmentário que aponta a construção de sentido poético pela reconstrução narrativa do observador. The Thief and the Cobbler é um filme fugitivo que  saiu das mãos do criador, que foi pensado com uma finalidade (fílmica) e se resistiu até develar sua verdadeira natureza: sua produção fragmentaria faz sentido numa presentação fragmentaria. É uma obra viva no sentido das infinitas re-coinstituições que podem acontecer nas suas partes, pela continua reapropriação e reedição que nasceu de um processo aberto, que não pode conseguir um fechamento, é sim uma atenção aos detalhes, interpretados só num sentido do prazer visual, de estranhamento poético por as formas e as ações.

Estou a propor um novo exercício para The Thief and the Cobbler, a reconstituição fragmentaria e muda (de narração) do filme, libertar-lhe da linealidade repetitiva do cinema, e lhe fragmentar em tantas pequenas líneas como seja possível, develar sua natureza visual pela divisão de estilos (o que vem do gusto por a animação), e assim chegar a um hibrido entre ele e WAX-WEB, algo assim como “The Thieff of The Bees”: um filme fugitivo que aproprie as qualidades de colonia e enjambre, do fragmento metafísico proposto por David Blair com a imagem que fuje da narração porque mantêm em ela na sua estrutura mais básica, nos tipos de personagem e seus códigos de representação (esse aí é o mau, a princesa, o “hero“, etc.), transcendendo os cânones, estabelecendo outra montagem (uma montagem pós-dialética a falta de melhor palavra), o que permite esse outro estranhamento visual da animação por a animação.

1- Além da inspiração da arte Persa, pode se notar a psicodelia fantástica exemplificada magistralmente por  Yellow Submarine (George Dunning, Canada, 1968), o atualizado estilo Disney de “The Jungle Book” (Disney, USA, 1967), e das gravaduras de E.C. Echer, entre outras.

The Thief and the Cobbler reconstruido por Garrett Gilchris:

https://www.youtube.com/user/TheThiefArchive?feature=watch

http://tygerbug.tumblr.com/post/36726091731/the-thief-and-the-cobbler-recobbled-cut-mk4

http://thethief1.blogspot.com.br

WAX-WEB de Richard Blair:

http://www.waxweb.org/

Enlaces consultados pela última vez em 19-04-2013

Um pequeno progresso dos desenhos para Nossa Vida em Porto Alegre. Ainda não tenho certeza do que vou fazer com eles, a coisa vai apontado a uma publicação e uma animação; ou uma publicação para fazer uma animação. Estou experimentando com desenhos feitos desde fotos,  ensamblagens de séries fotográficas e panoramas criados com distorções, algumas muito pequenas, outras mais visíveis.

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Nossa vida em Porto Alegre e Guillermo Gomez-Peña

Imagem tomada de http://interculturalpoltergeist.tumblr.com/, um projeto de fotoperfomance de Gillermo Gomez-Peña

GP’s first Drag, Mexico City, 1961. Photo taken by his father.

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Tenho de fazer dois confissões. (UM) Este espaço serve-me para praticar a minha escrita em portuguese. (DOIS) Ao seguir uma mecânica de diário, de caderno, estou tentando recopilar toda matéria importante que me permita voltar a ser. O que eu estou procurando é o EU. O que me é importante, o que tinha-me interessado, o que interessou-me, o que tem sido uma paixão, as minhas motivações.

Estou tentando definir-me, ter algo a dizer (de novo), usar meu cérebro, refletir, pensar e no final atuar. Ter algo visível ao mundo. Trabalhar e pensar e desenhar com auto-consciência. Estou tentando poer minha mente em algum lugar, e no processo descobrir onde tive a minha cabeça. Eu estou tão disperso, o ano todo foi assim.

As vezes faço preguntas tolas, como hoje que pensei apos ler meu curriculum “que se artista ou animador”. O que faz sentido na distinção? Eu tenho feito animação, tenho feito desenho. Quero voltar a desenhar, mas não acho que. O que sumiu? O espaço. o tempo, o amor.

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Tenho dificuldade de separar a minha vida do meu trabalho. Na procura de um equilíbrio traço-me frustração. Agora estou desenhando coisas dessa vida aqui no Porto Alegre. São um monte de coisas que tem sido presentes no meu ano (nosso ano): um pode dizer objetos. Dentro de pouco a gente vai para São Paulo e temos de levar menos do que trouxemos. Para mim será outro recomeçar. Na minha cabeça estou fazendo um mala com as coisas para lembrar da nossa vida aqui. Desenhar nossos objetos, as nossas pequenas coisas, faz parte da bagagem.

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Hoje li um texto recente de Gillermo Gomez-Peña, o artista da performace mexicano mais conhecido pelo seu projeto LaPocha Nostra, uma “troupa” criada para promover e gerar colaborações com outros atristas. Gomez-Peña define a sua pratica artística de forma complementar a sua labor como docente, dirigindo projetos pedagógicos radicais, mais conhecidos como “The Pocha Metod”, uma serie de oficinas que vem realizando internacionalmente. O escrito é um diário da sua recuperação duma grave doença, abordado pela influencia dela no seu processo criativo. Numa passagem ele fala sobre a nostalgia das coisas feitas, e como elas podem-se interpor nas possibilidades atuais, o como elas afetam a sua realidade atual. Não tem duvida em pensar que a nostalgia é uma forma de escapismo:

I imagine…I imagine I am on the road with my troupe. I imagine I am performing in all the exciting places I was supposed to be: Cuba, Brazil, Canada. I also imagine myself receiving a prestigious award in Los Angeles and/or performing and teaching at Stanford. I’m supposed to be there right now. My imagination begins to wander in the landscape of my past as a newly arrived immigrant in Los Angeles. I imagine myself as a young Gómez-Peña performing extreme tasks such as walking from Tijuana to Cal Arts in two and a half days in order to understand migration; lying for 24 hours wrapped in fabric inside a public elevator to express the pain of leaving my country; not speaking for a month in order to investigate language…I remember or rather I imagine my self reenacting these actions again, now, at 57. Although I politically oppose nostalgia and regard it as a form of escapism, this particular form of creative nostalgia feels kind of healing, at least that’s what my delusional self #1 tells my struggling self #2.

O texto completo  pode ser lido neste link:

http://visitor.benchmarkemail.com/c/v?e=255D2B&c=EDCB&l=5613C96&email=pAEjKYJxQ4xe%2Bzd6bNiw8t4bTfzD%2Fgg1&relid=48332CA0

Sobre la Pocha Nostra:

http://www.pochanostra.com/

Tempo dentro do tempo: Don Hertzfeld e Das Rad

Tenho que falar de coisa na minha cabeça, e que melhor a fazer apos assistir um Making off de Don Hertzfeldt titulado Watching Grass Grow.

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A coisa já estava ali dentro. Surgiu faz alguns anos na minha leitura dum livro maravilhoso de Ítalo Calvino titulado (em espanhol) “Si una noche de invierno un viajero”. A ideia volto em outro libro que li á pouco tempo, “A hora da estrela” de Clarice Lispector: A relação entre o autor e  seu processo criativo na situação onde o autor vira personagem, o que também pode ser dito assim: A relação ativa e visível entre o processo criativo como parte da obra de arte. A gente poderia falar da mesma coisa nas artes vivas, do performance, dos happenings, da arte efêmera, da Ana Mendieta, de Fluxux, da música concreta e do situacionismo, entre outras manifestações,  salvo da especificidade da animação frame by frame de permitir uma abstração do tempo sobre o tempo.

O video de Hertzfeldt é quase um diário, e tem o mesmo encanto dos romances de Lispector e Calvino; é coisa de quem gusta de refletir sobre como é que a magia funciona. Minha namorada não gosta dos making-of porque faz dano na visão dos filmes, a tela azul não é tão legal como assistir o Golum lutando com Frodo em “O Senor dos aneis”. Calvino fala disso no seu romance, o que acontece se você cruza o espaço de quem lê a quem escreve, aquele que esta pensando sobre a magia e aquele que esta pensando como fazer magia. O particular do Watching Grass Grow no seu devenir de documentário, é que volta a ser magia pela sua mecânica, por aquelo que  só pode-se mostrar  no time-lapse, no cut and paste de uma serie de momentos (frames) deslocados e ainda contínuos: a forma que permite abstrair animação da animação (o jogo do tempo que normalmente acontece na edição de qualquer audiovisual acrescenta-se pela vontade final dum processo de ir e voltar no tempo, de desenhar frames e ciclos, construir animação sobre a edição do processo.

Num sentido literal, fazer animação com técnicas como a pixiliation (ou tudo o que implique fazer o frame by frame), vai ter implícito um tempo que funciona dentro de outro tempo. Então para falar da Watching Grass Grow temos trés níveis temporais: o nível da sequencia dos desenhos, o nível da ação de desenhar no tempo, e finalmente o nível videográfico que é possível pela expansão do mundo que trai a fotografia (e as tecnologias da imagem análoga, magia do siglo XIX e XX).

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Lembrei de ter assistido algumas animações que funcionam deste jeito, fazendo brincadeira entre as formas de perceber o tempo, aproveitando-se da natureza, ou dum principio no ato de animar: cada objeto animado tem o seu próprio tempo. Um bom exemplo é Das Rad (A roda), filme muito famoso pois foi nominado para um Oscar a melhor animação:

Para finalizar eu tentei procurar outra animação, onde um personagem tenta reviver outro animando o seu cadáver, fazendo a brincadeira da animação dentro de outra animação.  Ainda não achei o link, lembro que estivo no portal do Coletivo Moebius.

Mais informações acerca sobre Das Rad: http://www.dasrad.com/

Website de Don Hertzfeldt: http://www.bitterfilms.com/

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Primeira revisão feita no 4 de janeiro de 2013

Segunda revisão feita no 16 de janeiro de 2013

O sonho da Sultana

Sultana’s Dream from Isabel Herguera on Vimeo.

Ache este projeto muito bonito, da animadora espanhola Isabel Herguera. Ela quer fazer umas oficinas de animação com mulheres da India. A ideia é fazer um documentário sobre elas a partir de um conto de Rokeya Hossia (Roquia Sakhawat Hussain) titulado “Sultana’s Dream” (O sonho da Sultana), um conto feminista onde as mulheres governam e os homens são discriminados por seu genro.

O projeto recebe donações a través do site de crowd funding: euskadi goteo   que apoia  propostas abertas e com licença Creative Comons na Espanha.

Mais informação deste projeto em: http://euskadi.goteo.org/project/sultana-s-dream

Animação no cinema, ou a direfenciação dos principos do movimento

Animação é a síntese do movimento. O jogo do animador vem da desconstrução, porque a ideia de rolar a câmera segue sendo atual, sem importar os novos gadgets do video digital, ou das novas medias (que já mais serão novas depois de 30 anos de uso). Tem também esta diferença entre a origem da media, que se video, que se cinema. Lev Manovich diz no seu célebre The Lengauge of New Media, que o cinema na era digital é uma forma de animação, pois o rolar da câmera é só um dos processos involucrados na construção do filme, agora, uma construção misturada.

Lembro-me de assistir só o primeiro episodio das História (s) do Cinema, de Godard, e não achar alguma coisa interessante. O cinema ficava pra mim como essa coisa da narração, pode-se dizer uma distração, um entretenimento, não um compromisso. Passou muito tempo, e tenho redescoberto o cinema. Acho que teré de voltar as Historia (s) do Cinema com outros olhos.

Lendo um artigo de Cyril Béghin, que achei por casualidade procurando no Google sobra poética da animação, encontrei reflexões, ainda encantadoras sobre a origem da síntese, do espetáculo do movimento, duma poética da animação que faz parte do principio do cinema e quisera compartilhar alguns trechos. O artigo foi originalmente publicado na revista Devires, Belo Horizonte, v. 4, n. 1, p. 26-35, jan.-jun. 2007:

É um problema arcaico: é preciso pensar o movimento conjunto do princípio motor, a alma, e daquilo que ela anima? Haveria uma alma automotora? Se quisermos permanecer físicos em nossa análise é preciso, então, poder pensar a confusão espacial, sobre a imagem, daquilo que anima e daquilo que é animado; o que o vídeo permitiria, a própria idéia de mixagem. As História(s) do cinema operariam assim um retorno à etimologia da palavra “animação” e desenvolveriam três principais modos de figuração da “alma automotora” (…) (Págs. 29-30)

O que se afirma aí enfaticamente, para além da variação sobre a ontologia baziniana (“O cinema, múmia da modificação”), é a idéia de que o movimento no cinema é menos o da duração tomada sobre o todo do que o movimento que vai de um instante decisivo a um outro, uma seqüência indefinida de atos, a seqüência terrível do(s) instante(s) fatal(is) que são aqueles do registro da morte trabalhando e o da animação da figura estritamente confundidos. O cinema é amão (2B e 4A), ou seja, o que faz, o que está em ato. (Pág. 32)

Dizer que o cinema é uma arte do tempo perde sua banalidade se adotamos o ângulo da animação, da repetição ritmada dos instantes fatais, se dizemos com Benveniste que o ritmo é a organização do que está em movimento, “a forma no instante em que é assumida pelo que é movente, móvel, fluido” (BENVENISTE, 1966). A ambição das História(s), então, é mostrar que o ritmo que as formas cinematográficas assumem não se define apenas tecnicamente pela regularidade do desenrolar da película (…) (Pág. 33)

O artigo completo pode ser achado neste link

(consultado pela última vez no 12 de decembro de 2012)